O equilíbrio dos cascos

Por Robson Le Mener


O equilíbrio dos cascos

 

Condição de um sistema em que as forças que sobre ele atuam se compensam anulando se mutuamente. (Wikipedia)

O equilíbrio quando aplicado à colocação de ferradura é tridimensional e pode ser definido como um peso ou força igual em torno do centro de gravidade do membro do equino. De forma ideal, o centro de gravidade do membro e idêntico ao do casco."(BUTLER 1994)

Equilíbrio Estático versus Equilíbrio Dinâmico: Equilíbrio estático refere-se ao equilíbrio geométrico do membro e do casco na posição de estação.

 

Em geral, se a superfície da sola (arco) for perpendicular ao eixo, do membro, e quando observadas pela frente, as paredes medial e lateral do casco são iguais em comprimento e a banda coronária e paralela ao solo, presume se que o casco está em equilíbrio estático.

 

Legenda das fotos

 

  • Figura1. Exemplos de equilíbrio estático, vale ressaltar o piso em que deve ser feita essa avaliação, plano e firme. a) fonte internet e b) Claudicação segundo Adam’s.

 

Equilíbrio dinâmico (funcional) refere-se ao apoio do casco no solo (plano e nivelado) durante o movimento.

 

  • Figura 2. Mostra o Equilíbrio Estático do casco em 3 planos, dorsopalmar, lateromedial e palmar/plantar. Atenção para os ângulos na região da pinça e do talão e do centro de rotação do casco, representado pela linha tracejada na segunda foto e pelas duas setas próximo ao ápice da ranilha. Modelo esquemático do Professor Willian Russell 1897, Fonte S. O’Grady.

 

Quando um casco está em equilíbrio dinâmico ele se apoia de maneira plena. Porém isso não significa que há peso igual distribuído no fundo do casco já que normalmente mais peso e colocado no lado palma/plantar medial durante a fase de aterrissagem, e apoio.

Para um casco, estar equilibrado dinamicamente para movimento eficiente e passadas simétricas, o cuidado e a colocação de ferraduras precisam levar em consideração a conformação, desvios e outros fatores. A obtenção de equilíbrio dinâmico, em especial quando se trabalha com anormalidades no andamento, frequentemente envolve tentativa e erro. Quanto mais a conformação se desvia das diretrizes-padrão, menos provavelmente as técnicas de cuidado com o casco estático e dinâmico vão produzir resultados similares.

 

Alinhamento Tubular Pinça-talão: O ângulo do casco no talão deve ser paralelo ao da pinça. Quando o ângulo do talão for 5° menor que o da pinça, diz-se que o casco apresenta talões escorridos, nesse caso, os túbulos córneos no talão podem estar comprimidos e/ou colapsados para frente e podem estar mais próximos de serem paralelos que perpendiculares à superfície do solo. Raramente o ângulo do talão é mais aberto que o da pinça, mas pode ocorrer, e quando isso ocorre a muralha na região da pinça cresce de forma côncava.

O equilíbrio dorsopalmar/plantar (DPa/P) refere-se ao ângulo do casco (relação entre a parede dorsal do casco e o solo) e o alinhamento do ângulo do casco e o ângulo da quartela.

 

  • Figura 3 – Mostra a diferença entre um casco com as paredes da pinça e dos talões alinhadas e quando isso não ocorre. Observe na ilustração da direita que o talão termina bem na região do processo alar.

 

Cada equino tem seu próprio ângulo ideal de casco; considerado correto quando o casco e a quartela estão alinhados; a superfície dorsal do casco está paralela a uma linha imaginária (eixo) passando pelo centro do osso longo da quartela (falange proximal) O objetivo é alinhar a superfície dorsal do osso do casco com o eixo do osso longo da quartela.

 

A parede do casco pode ser usada como um guia, apenas se não apresentar concavidades ou distorções, particularmente na área logo abaixo da banda coronária. A parede do casco deve ser reta, ou discretamente convexa, em toda a sua extensão até o solo. Se não houver concavidades ou distorções no casco normal, as superfícies dorsais da parede do casco e do osso do casco são paralelas.

 

Esse alinhamento é mais bem observado pela lateral do equino em estação em uma superfície plana e nivelada Uma linha imaginária através do centro do osso longo da quartela é usada para o seu ângulo; precisa ser relembrado que usando a superfície irregular formada por pelos e pele, na superfície dorsal da quartela pode resultar em erro.

Em muitos equinos, a apreciação do alinhamento do casco e da quartela pode não ser claro. A sustentação de peso e a posição do membro em baixo do corpo podem alterar a avaliação: além do mais, o ferrador precisa ser capaz de reconhecer uma deformidade sutil de casco na "muralha" e saber como ela afeta todo o quadro lateral. Nesses casos, avaliar a base do membro, (pontos de pressão, deformidades de sola, ranilha, barras, e talões, fazer um mapeamento), para determinar equilíbrio é útil na maioria dos casos.

Se o ângulo do casco for maior que o ângulo da quartela, a linha será quebrada para frente, e quanto maior o ângulo do casco, menor será o ângulo da quartela e mais para frente será quebrado o eixo casco - quartela.

 

  • Figura 4 – Ilustrações de Eixo quebrado para frente, esq., e Eixo quebrado para trás. Fotos Stashak.

 

Diminuir o ângulo do casco, aumenta a tensão no tendão flexor digital profundo e nos ligamentos do osso navicular ou osso sesamóide distal, e sua Bursa, tornando o equino mais suscetível a desenvolver problemas nessas estruturas. A maior parte das claudicações nos locomotores equinos estão associadas a ângulos quebrados pra trás. Animais com boa conformação, próximas do ideal (normal) mantidos na condição de pinça longa/talões baixos, ainda podem sofrer irregularidades no fluxo sanguíneo dentro do casco, ângulo negativo da 3a falange, entre outras sequelas.

 

Se o ângulo do casco for maior que o ângulo da quartela, a linha será quebrada para frente, e quanto maior o ângulo do casco, menor será o ângulo da quartela e mais para frente será quebrado o eixo casco - quartela. Aumentar o ângulo do casco, diminui a tensão no tendão flexor digital profundo (TFDP). Os problemas associados com ângulos maiores de casco incluem artrite da articulação interfalangeana distal e interfalangeana proximal, lesões do processo extensor, osteíte podal, aumento de tensão e carga nas lâminas dorsais do casco e tensão aumentada no ligamento suspensor do boleto (LSB) e tendão flexor digital superficial (TFDS).

 

Equilíbrio Medi lateral (ML)

Refere-se à relação entre as paredes medial (interna) e lateral (externa) do casco. Determinar o equilíbrio ML é uma das tarefas mais desafiantes do procedimento de aparar um casco onde se deve ter muito conhecimento, prática, e principalmente bom senso.

 

O objetivo é aparar o casco de forma que a sua superfície (perímetro) fique centralizada abaixo do membro. Isso permite que a estrutura do casco sustente o peso do membro igualmente, o desequilíbrio exacerbado, também pode comprometer os plexos sanguíneo no casco, sobrecarregar articulações, ligamentos, além de distorção do estojo córneo, trincas, alteração na movimentação e postura e claudicações.

 

Existem vários métodos para determinar o equilíbrio ML, mas nenhum funciona para todos os equinos, ou todos os membros. As considerações relacionadas ao método de obter o equilíbrio ML incluem a experiência do ferrador ou do veterinário, a idade do equino, o grau de anormalidade de sua conformação, os problemas associados a essas anormalidades e o uso do equino.

 

  • Figura 5. – Ilustração do mapeamento do casco como método de avaliação do equilíbrio dorsopalmar e lateromedial. Observe que as referencias externas estão diretamente ligadas a estruturas anatômicas internas. Fontes S. O’Grady.

 

Um bom método de se obter o equilíbrio ML estático é aparar o casco de forma que a banda coronária fique paralela ao solo. Isso funciona com membros relativamente dentro do ideal (retos), mas se um casco se remodelou com o tempo para acomodar-se em razão do desvio do membro, esse método de obtenção do equilíbrio M/L, com o casco pode submeter o membro a estresse desigual. Um método semelhante é aparar o casco de modo que o plano da superfície que apoia no solo seja perpendicular ao osso da canela (metacarpo) Uma régua em T ou um utensílio semelhante pode ser usado para se fazer essa determinação.

 

Esse método é útil somente para membros com conformação normal, e não se aplica nós posteriores. Um terceiro método é identificar anormalidades conformacionais, e de modo geral, fazer uma aparagem para que a superfície do casco, que apoia no solo, receba carga compatível com sua região (área do casco).

 

Qualquer atitude realizada pra melhora das condições de desequilíbrio de um casco deve ser feita de forma cautelosa, mudanças bruscas, reposicionamentos imediatos, podem causar desconforto e claudicações e até desenvolver novas patologias, bom senso sempre é a melhor "ferramenta".

 

Os problemas associados com equilíbrio ML inadequado do casco que acarreta aplicação desproporcional de forças, de um modo geral, acredita-se que um casco está equilibrado dinamicamente quando toca o solo de forma plana perante a nossa capacitação de percepção visual, é importante considerar também que a maneira como o casco toca o solo pode mudar de acordo com seu andamento, pode tocar plano ao passo, mas em dois tempos ao trote...bom senso. o apoio plano no solo também deve ser considerado somente como mais uma linha de observação.

Lembrem se, em biologia nada é exato, nem absoluto.

 

 

Fonte: Claudicação em equinos, segundo Adams 5a edição (2006)

Robson Le Mener FCG #09

 



Data: 2020-05-07 15:20:14